quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Manhãs Brumosas



"Aquela, cujo amor me causa alguma pena,Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,E com a forte voz cantada com que ordena,Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões inglesas,- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;E o meu desejo nada em época de banhos,E, ave de arribação, ele enche de surpresasSeus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
As irlandesas têm soberbos desmazelos!Ela descobre assim, com lentidões ufanas,Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;E como aquelas são marítimas, serranas,Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelosE as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;E à roda, num país de prados e barrancos,Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A observação das situações do cotidiano é o ponto de partida preferencial para os poemas de Cesário Verde

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

SARDENTA

Tu, nesse corpo completo,
O láctea virgem dourada,
Tens o linfático aspecto
Duma camélia melada.
NOITES GÉLIDAS
MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,

Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

CURIOSIDADES SOBRE CESÁRIO VERDE


Múltiplos olhares sobre a obra de Cesário Verde


Eduardo Lourenço
 «O universo de Cesário não é um universo pensado, crítico, à maneira de Eça (...), é um mundo sentido, palpado e ao mesmo tempo transcendido pelo sonho, que é desejo de um lugar outro, de uma humanidade outra que inconscientemente o conforta na sua admiração pela força, pela saúde e energia que a memória e o sangue lhe denegam.»

Jacinto do Prado Coelho
«Poeta do imediato, Cesário é também um poeta da memória...» (colectiva em «O Sentimento dum Ocidental», pessoal em «Nós»)

Óscar Lopes
«É, porém, em «O Sentimento dum Ocidental» (...) que o poeta ultrapassa com maior fôlego estrutural o seu naturalismo positivista, no mesmo momento em que parecia, aliás, consumá-lo em poesia. (...) Cesário não se desprende da imanência aos dados da percepção sensível, mas articula-o com um modo inteiramente novo, precursor do Cubismo ou Interseccionismo.»  
«Para Cesário, como depois para Pessoa, o eu, o tu, o nós, o tempo irreversível e as dimensões reversíveis do espaço, as coisas mais simples constituem problemas e despertam ânsias que a poesia apreende antes mesmo de se formularem em teoria.»

Luís Mourão
«... a sua poesia aparece, por isso, como um filtro por onde passa a cultura da «Geração de 70» para o Modernismo. E que Cesário seja um personagem singular e sem escola, só mostra essa verdade «natural» de que entre o nascer e o morrer o mais difícil talvez seja o espaço que vai de um ponto ao outro...»

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

AS LINGUAGENS FANTÁSTICAS DA POESIA

                          CARACTERÍSTICAS  DO AUTOR CESÁRIO VERDE
 Eis algumas das características estilísticas e linguísticas: vocabulário objectivo; imagens extremamente visuais de modo a dar uma dimensão realista do mundo (daí poeta-pintor); pormenor descritivo; mistura o físico e o moral; combina sensações; usa sinestesias, metáforas, comparações, hipálage; emprega dois ou mais adjectivos a qualificar o mesmo substantivo; quadras, em versos decassilábicos ou alexandrinos; utilização do "enjambement".