segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011


A Representação Social na Obra de Cesário Verde

Poeta português, José Joaquim Cesário Verde nasceu em Caneças, no concelho de Loures, a 25 de Fevereiro de 1855. O seu pai era lavrador e comerciante, sendo proprietário de uma quinta nas arredores de Lisboa, em Linda-a-Pastora[1], e de uma loja de ferragens na baixa lisboeta, onde Cesário Verde chegou a trabalhar. Paralelamente, foi  nestas atividades que compartilhou a sua vida, fazendo do quotidiano o assunto da sua poesia. Assim,   ia alimentando o seu gosto pela leitura e pela criação literária, embora longe dos meios literários oficiais com os quais nunca se deu bem, o que o levou, por exemplo, a abandonar o Curso Superior de Letras da Faculdade de Letras de Lisboa, que frequentou entre 1873 e 1874, e onde segurar conhecimento com figuras da vida literária, como Silva Pinto, que se tornou seu grande amigo e, após a sua morte, compilador da sua obra.
Cesário Verde afirmou-se sobretudo pela sua oposição ao lirismo tradicional. Em poemas muitas vezes cínicos ou humorísticos, consegue manter-se ausente à literatura procurando enfocar os seus poemas com um tom natural que valorizasse a linguagem do concreto e do coloquial marcando o seu desejo de autenticidade e o amor pelo real e que ocasionou a acusação a sua poesia  corriqueiro.
A sua poesia deteve-se em passar pela cidade ou pelos campos seus cenários prediletos, transformando o que eram oferecidos nesses ambientes como os sentidos as cores, formas e sons, de acordo a fórmula do próprio poeta, expressa em carta ao amigo Silva Rinto. “A mim o que me rodeia é o que me preocupa”.
Se por um lado exalta os valores agreste, saudáveis  da vida do campo e do seus trabalhadores, sem visões ingênuas, por outro lado, na cidade contemporânea os movimentos humanos, solidarizando-se com as vitima de injustiça sociais e integrando na sua poesia, por vezes, um desejo de fuga, assim como a discrição plástica da realidade o que a próxima do realismo e do parnasianismo. Além do seu interesse pelos fracos e humildes na cidade, como  uma recriação impressionista ou fantasista da realidade.
A poesia de Cesário Verde é centrada nas representações de imagens dos ambientes campestres no poema intitulado “Folha Verdes” é bem visível essa   postura que o autor tem em está levando para o leitor um  cenário mais agreste deixando nesse cenário seu toque poético em seus poemas.
Flores Velha

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas;
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

As estrofes citadas acima, é uma  composição poética que pode ser considerada uma elegia, já que exprime sentimentos tristes e dolorosos, em consequência da saudade provocada no eu poético por um amor passado. Este poema é um monólogo endereçado a uma mulher, Clarisse, que se encontra ausente. É apresentado um “jardinzinho agreste” onde o sujeito poético passou momentos de grande felicidade., associando os elementos da natureza ao grande momento que ali viveu.
Devido ao fato de ser filho de um comerciante com uma loja de ferragens em Lisboa e uma exploração agrícola em Linda-a-Pastora, Cesário passa  a infância entre os ambientes citadino e rural, binômio que será marcado em toda a sua obra.
A poesia de Cesário Verde centra-se  em uma linguagem flexível  cujos recursos visuais e sensoriais associados ao movimento de um artista plástico  ambos integram à sua obra, à uma  estreita afinidade com uma realidade em processo de transformação.
 Fernando Pessoa  define o plástico de um modo  objetivo:
 “Segundo característico da objetividade poética é aquilo que podemos chamar a plasticidade; e entendemos por plasticidade a fixação do visto ou ouvido como exterior, não como sensação, mas como visão ou audição. Plástica nesse sentido, foi toda a poesia grega e romana, plástica poesia dos parnasianos, plástica (além de epigramática e mais) a de Victor Hugo, plástica, de novo modo, a de Cesário Verde. A perfeição da poesia plástica consiste em dar a impressão exata e nítida (sem ser exatamente epigramática) do exterior como exterior, o que não impede de, ao mesmo tempo, o dar como interior, como emocionado.”
                                                                          (Pessoa 1974: 384, 385)
A poesia plástica  ressaltada por Fernando Pessoa, presente na obra de  Cesário Verde é a poesia em que a miragem ressalta a realidade exterior, essa que é divulgada, principalmente através da descritividade e objetividade da linguagem.A plasticidade da poesia cesariana retrata o período de transição do cenário europeu do século XIX. A flexibilidade visual da época permite ao poeta a construção de momentos imagéticos apresenta-se mediada pela subjetividade.As imagens ganham formas e tons específicos para aguçar aquilo que evocam; o observador recria a realidade como faz o pintor.
Entretanto,  a sua escrita centra-se, essencialmente, na diferença entre a cidade e o campo, no papel da mulher e no seu olhar negativo sobre Lisboa, sempre seguindo os padrões do Realismo. É valido ressaltarmos, que a sua obra embora, mostra-nos através  da sua poesia o reflexo da realidade de sua época o seu maior desejo era modificar a sociedade em que vivia e fazia isso através de suas obras tudo escrito, sem preconceito e com simplicidade, ao longo da sua curta carreira poética.
REFERÊNCIAS:

PESSOA,  Fernando. In: BERARDINELLI. Cleonice (org.). Obras em prosa. Rio de Janeiro. Editora Nova Aguilar S.A.1993

VERDE, Cesário. O Livro de Cesário Verde. Rio de Janeiro. Livraria Estante. Editora  Aveiro, 1987.
GOVEIA, Maria .A plasticidade na poesia de Cesário Verde. São Paulo, 1983 Disponível em :http://www.revista.agulha.nom.br/ag52verde.htm. Acesso em: 02/03/11.


[1] Linda-a-Pastora é uma povoação da freguesia de Queijas, no concelho de Oeiras, em  Portugal

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